OTAVIO FRIAS FILHO -
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1303200307.htm
Planos A, B, C...
O governo rejeita qualquer hipótese sobre um eventual
Plano B -alguma fórmula alternativa à que está sendo
adotada- e nem poderia ser diferente. Admiti-la, mesmo
que reservadamente, equivaleria a dar um tiro no próprio
pé. O governo acha que não lhe resta opção no curto prazo
exceto manter, e radicalizar se for preciso, a política
herdada de FHC.
Para quem não é co-responsável pelo governo e tem a
obrigação de procurar não se iludir nem propalar ilusões,
cabe recordar que não foi essa a mensagem passada ao
eleitorado na campanha. O cerne dessa mensagem era a
promessa de que havia, sim, um Plano B: não seria
implantado de súbito nem de forma irresponsável, mas
tampouco seria adiado ou esquecido.
Em resumo, se eleito, Lula iniciaria mudanças que
permitiriam transitar para um modelo econômico menos
dependente de financiamento externo, no qual as taxas de
juros cairiam e o crescimento seria retomado. Toda
campanha eleitoral é demagógica, e a do ano passado,
então saudada como a mais densa e fecunda quanto ao
"debate" de propostas, não foi exceção.
Valeu, como sempre, a máxima de que o importante é vencer
a eleição; depois se vê como governar. Se existe
surpresa, ela decorre da evidência de que o partido mais
bem estruturado do país, depois da mais longa e
organizada transição de poder que já tivemos, não apenas
carecia de qualquer Plano B, como abraçou o Plano A, que
vinha combatendo havia anos, com fervor próprio de um
cristão-novo.
O governo ainda não completou o terceiro mês, mas até o
momento o quadro é inquietante. Na economia, mais do
mesmo -com o requinte da adoção da fraseologia surrada do
governo anterior sobre a urgência das reformas
previdenciária e fiscal. Nas demais áreas, a sensação
crescente de uma gestão confusa, emperrada, com fraca
capacidade executiva.
Na tentativa de se legitimar perante as instâncias de
poder econômico -empresariado local, agências e
investidores externos-, o governo petista parece ter sido
"colonizado" pelo financismo da administração tucana,
cujo emblema foram o ministro Malan e a sucessão de
siderados que andaram dirigindo o Banco Central. A
felicidade per capita entre banqueiros continua entre as
maiores do mundo.
Os indícios ainda não são alarmantes. Logo, porém, as
pesquisas de opinião estarão a registrar o desencanto
inevitável ante o abismo entre os contos de fadas
vendidos durante a eleição e o continuísmo sem disfarces
que vem sendo adotado. Lula será atingido naquilo que
mais lhe importa, a dependência que desenvolveu em
relação à imensa popularidade com que se (mal) acostumou.
Somente então essa conversa sobre Plano B será para
valer. O mais provável é que, primeiro, o comando do
governo pense num choque de gestão: fazer as mesmas
coisas, sim, mas com mais competência gerencial. Serão
trocados alguns ministros (não os principais, ainda). Se
nada surtir efeito, virá o desespero em busca da pedra
filosofal do crescimento econômico, sabe-se lá por que
meios e a que preço.
CLÓVIS ROSSI -
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1303200304.htm
E a "solucionática", companheiros?
SÃO PAULO - Os brasileiros acabamos de ser informados de
que o PT passou praticamente toda a sua vida equivocado.
É a única conclusão possível a se tirar do mea culpa do
líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, segundo
quem seu partido errou ao não ajudar a aprovar as
reformas propostas pelo governo Fernando Henrique
Cardoso.
É importante deixar claro que tais reformas, com
diferenças apenas de matiz, estão na agenda tupiniquim
desde pelo menos o governo José Sarney. É igualmente
importante lembrar que o PT sempre se opôs a elas, não
apenas no governo FHC.
Tanto que o próprio Mercadante admite: "Se nosso discurso
fosse tão bom, não teríamos perdido duas eleições"
(perderam três, na verdade).
Se um partido confessa ter passado a maior parte da sua
vida enganado, como é que a gente pode acreditar que
agora, sim, esse partido descobriu a verdade, no muito
discutível pressuposto de que exista uma verdade única e
definitiva?
Não me venham, por favor, com a tolice de que as reformas
-o novo bezerro de ouro- promoverão a felicidade nacional
bruta e que, portanto, ao descobrir o valor delas, o PT
finalmente chegou à idade da razão.
Só acredita nessa hipótese quem acha que as reformas são
o pote de ouro ao pé do arco-íris, o Santo Graal ou o
equivalente. Dois terços dos brasileiros não acreditam,
tanto que votaram em candidatos de oposição ao governo
que fez das reformas uma espécie de samba de uma nota só.
Sem contar que boa parte do restante votou em um
candidato, José Serra, que não acreditava (e não
acredita) nas reformas como a pomada-maravilha, que
curará de Aids a pé-de-atleta.
É sempre possível que todos esses brasileiros estejam
errados, como o PT agora diz que estava. Mas é igualmente
possível que o PT apenas prove ser (ou ter sido) campeão
na hora de apontar a "problemática". Quando é preciso vir
com a "solucionática", patina, tergiversa, pede calma dia
sim, outro também, e faz mea culpa.
Mangabeira Responde: Lula não está nem no governo nem no poder
13/03/2003 - 12h44
http://noticias.uol.com.br/uolnews/tnm.htm?http:/noticias.uol.com.br/uolnews/entrevista/ult269u1057.jhtm
da Redação
em São Paulo
O governo Lula da Silva não está nem no poder nem no governo. Assim, o filósofo Roberto Mangabeira
Unger, da Faculdade de Direito de Harvard, comenta recente declaração de frei Betto, assessor do
presidente, pela qual Lula estaria no governo, mas ainda não no poder. Para Mangabeira, o governo "não
tem projeto estratégico".
Mangabeira diz que a ação do governo, até o momento, se resume em tomar medidas para reestabelecer a
confiança dos mercados e alimentar os famintos, mas que o programa Fome Zero é marcado por sua "inépcia
nas medidas emergenciais".
Para Mangabeira, não há mistério para que o programa possa funcionar. Ele defende que há dois bolsões de
miséria no Brasil, a zona rural e a periferia dos grandes centros urbanos. "Deve-se chegar lá (nesses
bolsões) com cheque, dinheiro vivo, sem condições de uso", diz. Mesmo assim, o filósofo acredita que
essas medidas emergenciais não desobrigam o governo de mudar a estrutura econômica do país, "que é o que
foi prometido na campanha".
Lula está fazendo tudo o que o mercado quer
Apesar da melhora dos indicadores da economia brasileira, como o dólar e o risco-Brasil, Mangabeira está
pessimista com a política econômica do governo. "O mercado está melhor porque Lula faz tudo o que o
mercado quer. É a calmaria antes da tempestade. Mais cinco batalhas ganhas como essa e a gente perde a
guerra", comenta.
Para o professor, a atuação do governo compromete a estratégia de retomada do crescimento econômico do
Brasil e está "descolada das exigências da economia real".
Mangabeira acredita que o presidente deveria "negociar com os empresários melhores condições de
investimentos no país, barganhar, sem romper contratos, a queda nas taxas de juros e o alongamento do
prazo da dívida, instalar algum controle de capitais, democratizar as condições de crédito e valorizar
os salários".
Governo investe contra o Estado de Direito ao investir contra reguladoras
Roberto Mangabeira Unger ainda critica a ação que o governo Lula ensaia para reduzir o poder das
agências reguladoras. Para ele, investir contra a independência das agências é investir contra o "Estado
de Direito". "Agência tem que ser independente", diz.
"É a teologia da confusão. O governo precisa da mídia e do poder. O povo precisa de competência
transformadora", critica.
Ele acredita que exista um "paradoxo" na situação. "O governo critica a terceirização do poder das
agências, mas terceiriza as políticas públicas para o mercado financeiro. Não há projeto estratégico, e
precisa ter já. O governo quer amealhar pesos para colocar no navio que está fazendo água", conclui.
Frei Betto não sabia sobre contas para doação
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1303200317.htm
DA REPORTAGEM LOCAL
Dois meses e meio após o início do governo, a equipe do
Fome Zero ainda não se entende sobre o programa. Até
anteontem, Frei Betto -assessor especial da Presidência
e coordenador do mutirão nacional de combate à fome-
desconhecia que o programa já dispunha de duas contas
correntes: uma no Banco do Brasil e outra na Caixa
Econômica Federal.
Frei Betto disse à imprensa que a burocracia estava
dificultando a abertura das contas e que elas seriam
abertas em abril. A conta da Caixa foi aberta em 27 de
janeiro, três dias antes do lançamento do programa. A do
Banco do Brasil foi aberta em 3 de fevereiro.
No dia 24 de fevereiro, o presidente da Caixa, Jorge
Mattoso, já havia informado a criação da conta. Mas
disse que seu número não poderia ser divulgado até que
ele recebesse autorização da equipe do Mesa (Ministério
de Segurança Alimentar), de José Graziano.
Ontem, o Mesa informou que o número das contas não havia
sido divulgado porque a equipe esperava confirmação do
início da operação da central de atendimento telefônico.
As doações depositadas nas contas integrarão o Fundo de
Combate à Pobreza -para financiar as ações do Fome Zero.
O número da conta da Caixa é agência 0647, conta 2003-3,
titular: Operação 006. No Banco do Brasil: agência 1607
-1, conta 1002003-9, titular: Fome Zero. (GABRIELA
ATHIAS)
PANORÂMICA
PT X PT -
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1303200314.htm
Lula age sob a ótica neoliberal, diz Comparato
Um dos principais intelectuais ligados ao PT, o advogado
Fábio Konder Comparato fez duras críticas, em entrevista
à revista "Caros Amigos" que circula hoje, à política
econômica e às propostas de reforma da Previdência.
"[Um] fato que me deixa muito perturbado é tratar
direitos fundamentais sob a ótica financeira do
capitalismo neoliberal [...]. O governo dos
trabalhadores ainda não entendeu que o direito à
previdência é um direito fundamental", afirma.
Para ele, o governo "usou a técnica do guarda-livros: "A
previdência está endividando a nação, então precisamos
não consertar as falhas da previdência social, não
reconhecer a todos esse direito sagrado, mas
simplesmente equilibrar as finanças". Isso já não é mais
pôr o carro adiante dos bois, é pôr o banqueiro e o
capital diante das pessoas humanas".
ELIANE CANTANHÊDE -
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1303200305.htm
Fome e vontade de comer
BRASÍLIA - Os dias no governo do ministro José Graziano,
do Fome Zero, estão contados?
Aparentemente, sim. Porque há petista discutindo até
nomes de substitutos. E -pasme!- o mais cotado não é de
nenhum deles. Quer dizer, de nenhum petista. Muito pelo
contrário. É o de Abílio Diniz.
Poderoso da cadeia Pão de Açúcar, Diniz acaba de se
afastar da gerência direta dos negócios e está aí, cheio
de experiência para dar. Principalmente de distribuição
de alimentos, uma das chaves do Fome Zero.
A alternativa Graziano versus Diniz (ou alguém com o
perfil de Diniz) é exatamente a alternativa entre o
afetivo e o pragmático. Lembremos que Lula é muito
afetivo em essência, mas tem procurado ser pragmático
como presidente.
Graziano é um belo sujeito, velho petista, ligado a Lula,
com perfil intelectual e cheio de boas idéias e boas
intenções. À sua imagem e semelhança, o Fome Zero -menina
dos olhos de Lula- se transformou num amontoado de belos
projetos isolados que não configuram um todo.
Em defesa dele, são só 70 dias. Até agora, ninguém sabe
de conta para depósito, não há onde estocar, quem quiser
enviar pequenas quantias do exterior não tem como. O
símbolo da falta de praticidade: os R$ 50 mil da Gisele
Bündchen, tão badalados, nunca passaram de gorjeta não
depositada. Ou seja, de não-gorjeta.
Ao contrário, Diniz é um homem sobretudo prático e de um
mundo hiperprático, capaz de desenhar rapidamente um
projeto sistematizado, com cronologia: com início, meio e
fim, aproveitando recursos, cadastros e equipes
existentes. E, como homem do capital, é ótimo ímã para
atrair verbas para a empreitada.
Agora, é saber se Lula topa mesmo a mudança e prever como
reagiriam não só Heloísa Helena, Luciana Genro e Babá,
mas aquela boa parte de petistas que considera a cota
capitalista já esgotada com Meirelles, Furlan e Roberto
Rodrigues.
A questão, portanto, é entre coração e mente, entre
criador e criatura. Com a palavra, Lula.
AGENDA PETISTA
Liberação de R$ 1,4 bilhão prometida a prefeitos virá do
FGTS
Lula anuncia recurso que já estava previsto em dezembro
SÍLVIA MUGNATTO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A liberação de R$ 1,4 bilhão do FGTS (Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço) para projetos de saneamento básico,
anunciada anteontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, foi decidida em 26 de dezembro de 2002 pelo
Conselho Curador do Fundo.
No final do ano passado, o conselho aprovou a liberação
de R$ 4,5 bilhões neste ano, sendo que R$ 3,1 bilhões
estão destinados ao setor habitacional e o restante para
saneamento.
Lula prometeu, na 6ª Marcha a Brasília em Defesa dos
Municípios, em discurso a prefeitos de todo o país, uma
maior "fatia" dos recursos arrecadados pelo governo para
os municípios. Ele apelou para que os prefeitos
compreendam a situação herdada, que torna, segundo ele,
"humanamente impossível" promover com pressa as mudanças
prometidas.
No evento, de concreto, Lula anunciou o investimento de R
$ 1,4 bilhão de recursos da Caixa Econômica Federal em
saneamento e infra-estrutura e a retomada de 1.674 obras
paralisadas, o que agradou ao público.
Apesar da disposição do governo de emprestar o dinheiro,
a Folha apurou que a dificuldade para a liberação dos
recursos é o cumprimento da meta fiscal acertada com o
FMI (Fundo Monetário Internacional). No Ministério da
Fazenda, os técnicos estudam como poderá ser efetivada a
liberação.
Desde 2000, embora os orçamentos do FGTS sejam
bilionários, a contratação com recursos do Fundo atingiu
valores muito baixos porque o CMN (Conselho Monetário
Nacional) vem limitando o montante de empréstimos que
Estados e municípios podem buscar nos bancos. A
contratação do FGTS é feita pela Caixa Econômica Federal.
Ao gastar o dinheiro dos empréstimos, governadores e
prefeitos reduzem seu superávit primário (receitas
maiores que despesas, exceto despesas com juros) porque
os investimentos realizados exigem novas despesas. Para
este ano, o governo espera que Estados e municípios
economizem R$ 17,6 bilhões dos R$ 68 bilhões acertados
com o FMI.
"O presidente certamente determinou à equipe econômica a
remoção dos obstáculos para a utilização desses recursos.
É importante o superávit primário, mas os setores de
habitação e saneamento geram empregos e renda", disse o
secretário nacional de Saneamento Ambiental do Ministério
das Cidades, Abelardo Oliveira Filho. Além da barreira
imposta pelo CMN, existem Estados e municípios que não
podem pedir emprestado porque estão acima dos limites de
endividamento impostos pelo Senado.
Além de demonstrar que têm capacidade de endividamento,
esses governos também precisam cumprir a Lei de
Responsabilidade Fiscal (obedecer ao teto de gastos com
pessoal, por exemplo). Outro requisito é estar em dia com
os pagamentos de tributos federais. No Banco Central já
existe uma fila de pedidos de empréstimos bancários no
valor de R$ 2,8 bilhões. No final do ano passado, o CMN
permitiu a contratação de mais R$ 200 milhões pelos
municípios, mas o novo limite já se esgotou.
Para privilegiar os projetos de saneamento, o CMN poderá
criar uma liberação específica para esse tipo de projeto.
Para os Estados e municipais que estão no limite de
endividamento, Oliveira informou que estão sendo
estudadas alternativas como a criação de um fundo de aval
que garanta o pagamento dos empréstimos.
AGENDA PETISTA -
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1303200309.htm
Liberação de R$ 1,4 bilhão prometida a prefeitos virá do
FGTS
Lula anuncia recurso que já estava previsto em dezembro
SÍLVIA MUGNATTO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A liberação de R$ 1,4 bilhão do FGTS (Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço) para projetos de saneamento básico,
anunciada anteontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, foi decidida em 26 de dezembro de 2002 pelo
Conselho Curador do Fundo.
No final do ano passado, o conselho aprovou a liberação
de R$ 4,5 bilhões neste ano, sendo que R$ 3,1 bilhões
estão destinados ao setor habitacional e o restante para
saneamento.
Lula prometeu, na 6ª Marcha a Brasília em Defesa dos
Municípios, em discurso a prefeitos de todo o país, uma
maior "fatia" dos recursos arrecadados pelo governo para
os municípios. Ele apelou para que os prefeitos
compreendam a situação herdada, que torna, segundo ele,
"humanamente impossível" promover com pressa as mudanças
prometidas.
No evento, de concreto, Lula anunciou o investimento de
R$ 1,4 bilhão de recursos da Caixa Econômica Federal em
saneamento e infra-estrutura e a retomada de 1.674 obras
paralisadas, o que agradou ao público.
Apesar da disposição do governo de emprestar o dinheiro,
a Folha apurou que a dificuldade para a liberação dos
recursos é o cumprimento da meta fiscal acertada com o
FMI (Fundo Monetário Internacional). No Ministério da
Fazenda, os técnicos estudam como poderá ser efetivada a
liberação.
Desde 2000, embora os orçamentos do FGTS sejam
bilionários, a contratação com recursos do Fundo atingiu
valores muito baixos porque o CMN (Conselho Monetário
Nacional) vem limitando o montante de empréstimos que
Estados e municípios podem buscar nos bancos. A
contratação do FGTS é feita pela Caixa Econômica
Federal.
Ao gastar o dinheiro dos empréstimos, governadores e
prefeitos reduzem seu superávit primário (receitas
maiores que despesas, exceto despesas com juros) porque
os investimentos realizados exigem novas despesas. Para
este ano, o governo espera que Estados e municípios
economizem R$ 17,6 bilhões dos R$ 68 bilhões acertados
com o FMI.
"O presidente certamente determinou à equipe econômica a
remoção dos obstáculos para a utilização desses
recursos. É importante o superávit primário, mas os
setores de habitação e saneamento geram empregos e
renda", disse o secretário nacional de Saneamento
Ambiental do Ministério das Cidades, Abelardo Oliveira
Filho. Além da barreira imposta pelo CMN, existem
Estados e municípios que não podem pedir emprestado
porque estão acima dos limites de endividamento impostos
pelo Senado.
Além de demonstrar que têm capacidade de endividamento,
esses governos também precisam cumprir a Lei de
Responsabilidade Fiscal (obedecer ao teto de gastos com
pessoal, por exemplo). Outro requisito é estar em dia
com os pagamentos de tributos federais. No Banco Central
já existe uma fila de pedidos de empréstimos bancários
no valor de R$ 2,8 bilhões. No final do ano passado, o
CMN permitiu a contratação de mais R$ 200 milhões pelos
municípios, mas o novo limite já se esgotou.
Para privilegiar os projetos de saneamento, o CMN poderá
criar uma liberação específica para esse tipo de
projeto. Para os Estados e municipais que estão no
limite de endividamento, Oliveira informou que estão
sendo estudadas alternativas como a criação de um fundo
de aval que garanta o pagamento dos empréstimos.
AGENDA PETISTA -
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1303200302.htm
PFL e PSDB trancam pauta e adiam a eleição do Conselho
de Ética
Oposição impõe duas derrotas ao governo Lula no
Congresso
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Em ação coordenada, PFL, PSDB e o PMDB impuseram ontem
duas derrotas ao governo no Congresso. A principal foi
uma manobra articulada pelo PFL no Senado que bloqueou,
ao menos por mais um dia, o início da investigação sobre
o suposto envolvimento do senador Antonio Carlos
Magalhães em espionagem política contra seus
adversários.
Na Câmara, PFL e PSDB também conseguiram adiar a votação
da medida provisória 79, sobre futebol, o que manteve
obstruída a pauta de votação. Mas o principal movimento
político do dia se deu na sessão do Senado para votar a
MP 77, que trata da renegociação de dívidas de
agricultores.
Enquanto a MP 77 não for votada, o Senado não passa para
o item seguinte da pauta, a eleição de nove novos
integrantes do Conselho de Ética, palco da investigação
das acusações que pesam contra ACM. Ao PFL interessa
ganhar tempo para tentar compor uma saída política para
o senador, mas o fato é que a renegociação de dívidas
agrícolas é sempre fator de polêmica no Congresso.
O PT quer limitar a renegociação das dívidas aos
pequenos agricultores; os congressistas gostariam de
ampliar o universo dos devedores. Juntaram-se a isso a
intenção do PFL de preservar ACM e a vontade do PSDB em
afinar sua parceria com os pefelistas.
Mesmo com a aliança PSDB-PFL, o governo poderia votar e
aprovar a MP -e desobstruir a pauta- se contasse com o
apoio do PMDB. O partido está dividido em relação ao
processo contra ACM, mas quer participar do governo
ocupando um ou mais postos no ministério de Lula.
Para mostrar que seus 20 senadores são indispensáveis
para o governo ter maioria no Senado, decidiu fazer
corpo mole e apoiar o adiamento. Estava acertado
tacitamente com PFL e PSDB.
Nos últimos dias, passou a dizer que apoiará as reformas
de Lula, mas que prefere se manter independente. É outra
forma de pressão por uma definição sobre a participação
no governo. "Posição independente" significa só que
deputados e senadores negociarão seus votos a cada
votação.
O líder do PFL, José Agripino (RN), foi quem desencadeou
a operação que manteve obstruída a pauta de votação do
Senado. Ele desconsiderou acordo feito entre os líderes
do governo, Aloizio Mercadante (PT-SP), e dos outros
partidos, e pediu adiamento da votação da medida
provisória que permite a repactuação das dívidas dos
pequenos agricultores do semi-árido nordestino.
A suspeita de que o PFL agiu para proteger ACM foi
verbalizada no plenário pelo líder do PT, Tião Viana
(AC), e provocou reação dos líderes do PSDB e PMDB, além
de uma cizânia entre os tucanos. "Pode haver uma
insinuação perigosa sobre esse procedimento", afirmou
Viana, ao microfone. "Se nós deixarmos essa situação
nebulosa, vai haver uma relação indireta com a eleição
do Conselho de Ética", completou.
O comportamento do senador Jonas Pinheiro (PFL-MT),
relator da medida provisória da dívida dos pequenos
agricultores, deixou clara a motivação política do líder
do seu partido: leu seu relatório na íntegra, depois de
Agripino ter dito que o parecer não estava pronto e que
o relator precisaria de mais tempo para concluí-lo.
Esse, aliás, foi um dos argumentos usados por Agripino
para obter apoio dos líderes do PSDB, Arthur Virgílio
(AM), e do PMDB, Renan Calheiros (AL), para o adiamento.
A votação da MP foi transferida para hoje.
Câmara
Usando as ferramentas instrumentais que foram uma das
marcas registradas do PT nas últimas legislaturas,
pefelistas e tucanos na Câmara tentam deixar claro que,
apesar do discurso favorável às reformas, são oposição.
A MP 79, que trata de assuntos relativos ao futebol,
tranca a pauta desde anteontem. No final da manhã, o
governo anunciou que havia conseguido um acordo entre a
base aliada e a oposição para a votação à tarde, o que
livraria a pauta para as demais votações.
Durante a sessão plenária, porém, os líderes do PFL e do
PSDB tentaram aprovar requerimento retirando a MP da
pauta sob o argumento de que ela precisaria ser melhor
discutida.
O requerimento foi à votação e a oposição perdeu por 279
votos a 105. Devido a isso, a liderança do PFL usou de
seu direito regimental de solicitar o adiamento, por uma
sessão, da análise de MP. (RAQUEL ULHÔA, RAYMUNDO COSTA
E RANIER BRAGON)
AUTOCRÍTICA PETISTA
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1303200301.htm
A autocrítica é uma prática recorrente na história
mundial da esquerda. Positiva em sua essência, ela nem
sempre se caracterizou pela sinceridade. Nem por isso
deve ser menosprezada a atitude de alguns dirigentes
petistas, no Congresso e no governo, que reconheceram ter
errado ao não apoiar reformas propostas por Fernando
Henrique Cardoso e que agora o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva se esforça por aprovar, a fim de remover
entraves ao crescimento da economia.
Ao reconhecer o erro, entretanto, o alto escalão
governista dá margem a que se julgue que o PT agiu no
passado por oportunismo político, e não por convicção
sincera. O que se espera é que agora não deixe no ar a
mesma suspeita, e que seu objetivo seja maior do que
garantir a adesão do PSDB e do PFL a suas propostas. Uma
indicação mais concreta de que a mudança de posição
estaria consolidada poderá vir da reunião do Diretório
Nacional petista, no sábado, quando se espera que as
políticas do governo sejam referendadas.
É verdade, como disse o líder no Senado, Aloizio
Mercadante, que os petistas, na época minoritários no
Congresso, não podem ser inteiramente responsabilizados
pelo fracasso das reformas da Previdência e tributária.
Neste último caso, é certo que faltou empenho do governo
passado, mas na questão previdenciária a agressividade da
antiga bancada oposicionista contribuiu em muito para
tornar mais denso o clima negativo que impediu a
aprovação de mudanças nas regras de aposentadoria dos
servidores públicos.
O governo deve ainda à opinião pública um posicionamento
mais claro em relação aos juros. Durante muito tempo, os
petistas disseram que baixar a taxa básica dependia de
"vontade política". Agora, não basta colocar a culpa na
herança econômica que receberam, sob o risco de ficarem
expostos à acusação de que teriam praticado estelionato
eleitoral.