A LUA-DE-MEL CHEGOU AO FIM
Em 72 dias, o nível de satisfação da população com o governo caiu mais de 10
pontos percentuais. Os brasileiros começam a desconfiar que o presidente Lula e
sua equipe talvez não sejam capazes de produzir as mudanças que prometeram na
eleição
Rudolfo Lago
Da equipe do Correio
Com agências
A paixão ainda resiste. Mas o casamento da população com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva começa a cair na rotina. Com apenas 72 dias de governo, a altíssima
popularidade inicial de Lula começa a cair. Na segunda rodada da pesquisa
CNT/Sensus depois da posse, o grau de satisfação da população com o novo governo
caiu mais de 10 pontos. Em janeiro, o governo Lula tinha 56,6% de ótimo e bom.
Agora, esse índice caiu para 45%. Aumentou significativamente o percentual
daqueles que julgam ser o governo regular, de 17,7% para 32,7%. E a quantidade de
pessoas que afirmam que Lula e sua equipe têm tido um desempenho ruim ou péssimo
subiu de 2,3% para 7,9%.
No governo, a pesquisa teve o efeito de um balde de água gelada. As avaliações
dos números feitas no Palácio do Planalto pelos assessores do presidente indicavam
que a queda era resultado da impressão de que o governo, mais de dois meses
depois, ainda não foi capaz de produzir uma ação concreta de fato. Como se ainda
estivesse apenas arrumando o terreno para começar a governar, coisa que devia ter
acontecido na transição.
Os números escancaram a sensação que já se sentia de que o governo patina nos seus
primeiros dias. O líder do PT no Senado, Tião Viana (AC), admite os problemas.
''As dificuldades são muitas, e elas justificam a cautela e as medidas econômicas
mais duras. Mas nós temos de ter paralelamente ações de impacto. Estão fazendo
falta ações que marquem a visibilidade do governo junto à população'', reconhece
Viana.
Na busca pelas boas notícias pedidas por Viana, o governo reuniu no Palácio do
Planalto a Câmara de Políticas Sociais, um encontro dos ministros que têm
programas sociais, sob a coordenação da ministra de Promoção Social, Benedita da
Silva.
Muita conversa, mas nada de concreto. ''Essa é a percepção que parece angustiar a
população: muita reunião, mas pouca decisão concreta'', avalia o presidente da
Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e vice-governador de Minas Gerais,
Clésio Andrade, que encomenda a pesquisa.
A análise de Clésio sustenta-se nas perguntas da pesquisa que buscam medir o
grau de expectativa da população quanto à capacidade do governo de resolver os
principais problemas do país. Em janeiro, o grau de confiança demonstrado era
imenso. Agora, caiu sensivelmente. Na rodada anterior, 78,2% dos entrevistados
acreditavam que Lula diminuiria o desemprego, por exemplo. Esse percentual agora
caiu para 63,2%.
(http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030314/pri_pol_140303_178.htm)
AVISO IMPORTANTE
O líder do PT na Câmara, deputado Nelson Pellegrino (BA), considerou ''normal'' a
queda dos índices de popularidades de Lula. Segundo ele, é normal quem tem índice
muito alto perder um pouco. Mas ele considera que os números ainda revelam que o
presidente goza de grande popularidade. Pellegrino admite, no entanto, que a
pesquisa é um aviso importante. ''Uma pesquisa dessas tem que ser seguida de uma
reflexão'', observou.
Na oposição, os números não tiveram leitura tão condescendente. ''Os números são
reveladores da incapacidade que o governo demonstra de, simplesmente, começar. Não
comemoramos. A nós interessa que o governo dê certo. Se o governo tirar seus
projetos de reforma da clandestinidade e nos apresentar para que possamos
discuti-los, vamos ajudá-lo a subir a popularidade de novo'', comentou o líder do
PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). ''O programa de geração de emprego não
existe, a inflação não está contida, o Programa de Combate à Fome não distribuiu
nenhum grão de comida. A queda vai continuar'', disparou o líder do PFL na Câmara,
José Carlos Aleluia (BA).
(http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030314/pri_pol_140303_178.htm)
Visão do Correio
Mudanças urgentes
Se a performance internacional do país vai razoavelmente bem, com os títulos da
dívida se valorizando e a classificação de risco subindo de negativa para neutra,
pouco importa para o cidadão. O que ele quer é emprego e poder aquisitivo forte e
preservado ? perspectivas subjetivas nos números externos, e internamente
empurradas para um horizonte cada vez mais distante. Enquanto os juros sobem, a
inflação assusta e a renda cai, o governo se embaraça na agenda política.
Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito com enorme expectativa de mudança.
Contava-se que a força com que ele emergiu das urnas ? 61,27% dos votos válidos ?
lhe daria respaldo para acelerar o cumprimento das promessas de campanha. Na
seqüência, descobriu-se que nem o próprio partido, o PT, está totalmente fechado
com o presidente. A divisão interna complica a negociação com os demais partidos e
cerceia a ação do governo.
Sem uma base de sustentação definida, as reformas de que o Brasil precisa para
atender suas imensas e justas reivindicações sociais vão sendo adiadas. Nessa
conjuntura, entende-se a queda do índice de satisfação do brasileiro com o país ?
de 71,5% em fevereiro para 66,5%, segundo pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem.
Também se compreende a queda de 11,6 pontos percentuais nos que consideravam o
governo ótimo ou bom.
Tampouco é difícil captar por que caiu o número de pessoas que acreditavam que o
governo melhoraria a vida delas de seis meses a um ano e aumentou, de 10,6% para
17,6%, o contingente dos que agora acham que será preciso novo mandato para que a
expectativa se concretize. A leitura é simples: o governo está lento.
Lula precisa da popularidade para agir. Colhidos os efeitos das medidas
emergenciais, com ampliação da meta de superávit primário, retenção de
investimentos (com contingenciamento do Orçamento) e aumento dos juros, o governo
não pôde, ainda, tomar o rumo prometido. Nem a meta de crescimento estabelecida
para este ano, de 2,8%, parece suscetível de ser alcançada. O Ipea (Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada) a prevê um ponto percentual abaixo, em 1,8%. O que
significa menos emprego, menos renda, mais insatisfação.
O presidente precisa, em primeiro lugar, de união nas bases. O jogo de sedução
exercitado com o PMDB não pode provocar mais desgaste entre os aliados. É hora de
conduzir a ação política com firmeza, não do modo vacilante como ocorreu no debate
para instalação de investigações sobre a participação do senador Antônio Carlos
Magalhães (PFL) em escutas telefônicas ilegais na Bahia. Ontem, pefelistas,
peemedebistas e tucanos ajudaram a destravar a pauta de votações no Senado. De
certa forma, é uma porta que se abre ao diálogo.
Cabe aos líderes governistas no Congresso traçar estratégia de convivência
produtiva com a oposição. As propostas de reformas previdenciária e tributária
devem ser apresentadas com urgência. A expectativa, criada pelo próprio governo, é
de que sejam votadas este ano. Seria um bom alívio ? para o Estado e a sociedade.
(http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030314/pri_opi_140303_113.htm)
IGNORANTES E INJUSTIÇADOS
Renato Ferraz
renatof@correioweb.com.br
Um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário divulgado
esta semana mostra que cada brasileiro contribui com quase 35% do que ganha para
manter a máquina estatal. Isso inclui, além do saque mensal que a Receita Federal
faz nos salários, impostos e contribuições que incidem sobre produtos e serviços.
Quem recebe um salário mínimo só fica com R$ 136. Os mais abastados, que ganham
por volta dos R$ 10 mil, só embolsam R$ 5,8 mil ? ou 42% a menos do que
efetivamente recebeu. Por seu lado, cálculos mostram que 75% dos impostos saem do
bolso dos assalariados e do faturamento das indústrias. O capital financeiro e a
taxação de patrimônio participam apenas com os 25% restantes.
Isso é, convenhamos, uma maluquice total ? capaz de deixar irado qualquer
cidadão mais consciente. Mas como acabar com essas injustiças? O governo Luiz
Inácio Lula da Silva está, de fato, empenhado nisso? Ao se encontrar na
quarta-feira com os prefeitos que invadiram Brasília, o ministro da Fazenda,
Antonio Palloci, deu dois recados. No primeiro, disse que a reforma tributária
deve ter como foco o cidadão, não o Estado. No segundo, deixou implícito que a
União não aceitava perder ou transferir receitas para estados e municípios.
Eis aí o problema. No fundo, as discussões sobre a reformulação do sistema
tributário brasileiro mais uma vez vão deixar de fora quem produz: o cidadão
assalariado, o empresário, o produtor rural. A frase de Palloci, politicamente
correta, foi sob medida para ter ressonância na mídia. E para deixar os prefeitos,
como sempre ávidos por mais dinheiro, embaraçados.
Embora as expressões já tenham se tornado jargões, é fundamental que se gaste
melhor. Que se reduzam as despesas. Hoje, a União gasta pelo menos 30% do PIB
apenas com itens fixos de despesa ? previdência, servidores e juros. É preciso
combater a sonegação e os desvios de recursos públicos. É preciso acabar com a
festa maluca dos subsídios e renúncias fiscais.
É importante ressaltar, porém, que, na situação presente, não podemos sair por
aí simplesmente extinguindo impostos. A reforma tributária não deve ser vista
apenas como uma chance de pagarmos menos impostos. Ela pode, por exemplo, resultar
numa diminuição do preço que pagamos por determinados produtos. Pode, também,
simplificar nossas vidas. Pagamos hoje uns 50 tributos. Duvido que vocês, caros
leitores, se lembrem dos nomes de pelo menos 10 deles. Em matéria tributária,
somos uns ignorantes. Nos Estados Unidos, quando alguém compra um sanduíche, sabe
quanto deixou no caixa da lanchonete para o governo. Aqui, não sabemos direito nem
como nosso dinheiro é usado. Só sabemos que, além de pagar impostos, temos que
desembolsar o que sobra para pagar o seguro-saúde, a escola particular dos filhos,
a previdência privada...
(http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030314/pri_opi_140303_116.htm)
A LUA-DE-MEL CHEGOU AO FIM
Em 72 dias, o nível de satisfação da população com o governo caiu mais de 10
pontos percentuais. Os brasileiros começam a desconfiar que o presidente Lula e
sua equipe talvez não sejam capazes de produzir as mudanças que prometeram na
eleição
Rudolfo Lago
Da equipe do Correio
Com agências
A paixão ainda resiste. Mas o casamento da população com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva começa a cair na rotina. Com apenas 72 dias de governo, a altíssima
popularidade inicial de Lula começa a cair. Na segunda rodada da pesquisa
CNT/Sensus depois da posse, o grau de satisfação da população com o novo governo
caiu mais de 10 pontos. Em janeiro, o governo Lula tinha 56,6% de ótimo e bom.
Agora, esse índice caiu para 45%. Aumentou significativamente o percentual
daqueles que julgam ser o governo regular, de 17,7% para 32,7%. E a quantidade de
pessoas que afirmam que Lula e sua equipe têm tido um desempenho ruim ou péssimo
subiu de 2,3% para 7,9%.
No governo, a pesquisa teve o efeito de um balde de água gelada. As avaliações
dos números feitas no Palácio do Planalto pelos assessores do presidente indicavam
que a queda era resultado da impressão de que o governo, mais de dois meses
depois, ainda não foi capaz de produzir uma ação concreta de fato. Como se ainda
estivesse apenas arrumando o terreno para começar a governar, coisa que devia ter
acontecido na transição.
Os números escancaram a sensação que já se sentia de que o governo patina nos seus
primeiros dias. O líder do PT no Senado, Tião Viana (AC), admite os problemas.
''As dificuldades são muitas, e elas justificam a cautela e as medidas econômicas
mais duras. Mas nós temos de ter paralelamente ações de impacto. Estão fazendo
falta ações que marquem a visibilidade do governo junto à população'', reconhece
Viana.
Na busca pelas boas notícias pedidas por Viana, o governo reuniu no Palácio do
Planalto a Câmara de Políticas Sociais, um encontro dos ministros que têm
programas sociais, sob a coordenação da ministra de Promoção Social, Benedita da
Silva.
Muita conversa, mas nada de concreto. ''Essa é a percepção que parece angustiar a
população: muita reunião, mas pouca decisão concreta'', avalia o presidente da
Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e vice-governador de Minas Gerais,
Clésio Andrade, que encomenda a pesquisa.
A análise de Clésio sustenta-se nas perguntas da pesquisa que buscam medir o
grau de expectativa da população quanto à capacidade do governo de resolver os
principais problemas do país. Em janeiro, o grau de confiança demonstrado era
imenso. Agora, caiu sensivelmente. Na rodada anterior, 78,2% dos entrevistados
acreditavam que Lula diminuiria o desemprego, por exemplo. Esse percentual agora
caiu para 63,2%.
(http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030314/pri_pol_140303_178.htm)
AVISO IMPORTANTE
O líder do PT na Câmara, deputado Nelson Pellegrino (BA), considerou ''normal'' a
queda dos índices de popularidades de Lula. Segundo ele, é normal quem tem índice
muito alto perder um pouco. Mas ele considera que os números ainda revelam que o
presidente goza de grande popularidade. Pellegrino admite, no entanto, que a
pesquisa é um aviso importante. ''Uma pesquisa dessas tem que ser seguida de uma
reflexão'', observou.
Na oposição, os números não tiveram leitura tão condescendente. ''Os números são
reveladores da incapacidade que o governo demonstra de, simplesmente, começar. Não
comemoramos. A nós interessa que o governo dê certo. Se o governo tirar seus
projetos de reforma da clandestinidade e nos apresentar para que possamos
discuti-los, vamos ajudá-lo a subir a popularidade de novo'', comentou o líder do
PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). ''O programa de geração de emprego não
existe, a inflação não está contida, o Programa de Combate à Fome não distribuiu
nenhum grão de comida. A queda vai continuar'', disparou o líder do PFL na Câmara,
José Carlos Aleluia (BA).
(http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030314/pri_pol_140303_178.htm)
Visão do Correio
Mudanças urgentes
Se a performance internacional do país vai razoavelmente bem, com os títulos da
dívida se valorizando e a classificação de risco subindo de negativa para neutra,
pouco importa para o cidadão. O que ele quer é emprego e poder aquisitivo forte e
preservado ? perspectivas subjetivas nos números externos, e internamente
empurradas para um horizonte cada vez mais distante. Enquanto os juros sobem, a
inflação assusta e a renda cai, o governo se embaraça na agenda política.
Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito com enorme expectativa de mudança.
Contava-se que a força com que ele emergiu das urnas ? 61,27% dos votos válidos ?
lhe daria respaldo para acelerar o cumprimento das promessas de campanha. Na
seqüência, descobriu-se que nem o próprio partido, o PT, está totalmente fechado
com o presidente. A divisão interna complica a negociação com os demais partidos e
cerceia a ação do governo.
Sem uma base de sustentação definida, as reformas de que o Brasil precisa para
atender suas imensas e justas reivindicações sociais vão sendo adiadas. Nessa
conjuntura, entende-se a queda do índice de satisfação do brasileiro com o país ?
de 71,5% em fevereiro para 66,5%, segundo pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem.
Também se compreende a queda de 11,6 pontos percentuais nos que consideravam o
governo ótimo ou bom.
Tampouco é difícil captar por que caiu o número de pessoas que acreditavam que o
governo melhoraria a vida delas de seis meses a um ano e aumentou, de 10,6% para
17,6%, o contingente dos que agora acham que será preciso novo mandato para que a
expectativa se concretize. A leitura é simples: o governo está lento.
Lula precisa da popularidade para agir. Colhidos os efeitos das medidas
emergenciais, com ampliação da meta de superávit primário, retenção de
investimentos (com contingenciamento do Orçamento) e aumento dos juros, o governo
não pôde, ainda, tomar o rumo prometido. Nem a meta de crescimento estabelecida
para este ano, de 2,8%, parece suscetível de ser alcançada. O Ipea (Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada) a prevê um ponto percentual abaixo, em 1,8%. O que
significa menos emprego, menos renda, mais insatisfação.
O presidente precisa, em primeiro lugar, de união nas bases. O jogo de sedução
exercitado com o PMDB não pode provocar mais desgaste entre os aliados. É hora de
conduzir a ação política com firmeza, não do modo vacilante como ocorreu no debate
para instalação de investigações sobre a participação do senador Antônio Carlos
Magalhães (PFL) em escutas telefônicas ilegais na Bahia. Ontem, pefelistas,
peemedebistas e tucanos ajudaram a destravar a pauta de votações no Senado. De
certa forma, é uma porta que se abre ao diálogo.
Cabe aos líderes governistas no Congresso traçar estratégia de convivência
pr